Série AARS Depoimentos: Arquivos na pandemia – Evelin Mintegui

Iniciamos na segunda semana de julho/2020 a Série AARS Depoimentos: Arquivos na pandemia. Hoje publicamos o vigésimo nono depoimento.

A associada Evelin Mintegui relata o impacto da pandemia da Covid-19 no seu trabalho arquivístico.

Os depoimentos são publicados às quintas-feiras no site da AARS.

Evelin Mintegui 
Professora FURG
Rio Grande, RS.
Associada n. 366 da AARS

Meu nome é Evelin Mintegui, sou professora no Curso de Arquivologia na Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Desde antes da pandemia estou afastada das atividades de ensino, extensão e gestão para realização do doutorado em Ciência da Informação na Universidade Federal de Santa Catarina. Logo, meu depoimento que seria acerca de “ensinar sobre arquivos na pandemia”, é, na verdade, sobre “estudar sobre arquivos na pandemia”.
Quando o SARS-Cov-2 chegou ao país, eu tinha acabado de qualificar o projeto de tese. Qualifiquei numa sexta-feira e na segunda-feira já entramos em isolamento. Antes da pandemia eu já previa que algumas entrevistas da pesquisa seriam realizadas online, mas algumas delas eu planejava realizar presencialmente. Achei, também, que eu ia conseguir apresentar o trabalho em eventos, ouvir mais versões da história do grupo que eu estava pesquisando, enfim, receber críticas ou comentários que sempre surgem nesses contextos e enriquecem o processo de pesquisa. Nada disso pôde acontecer, ao menos não como eu imaginava.
O maior impacto da pandemia para mim, no entanto, foi conseguirmos nos organizar, meu companheiro e eu, em relação aos cuidados com nossa filha, cachorros, casa e trabalho. Conseguir manter o ritmo de pesquisa e escrita foi muito difícil com uma criança de 1 ano e meio/2anos, já que não temos nenhum outro familiar por perto. Ficar longe do restante da família foi e está sendo muito difícil para mim. Enquanto escrevo este depoimento enfrentamos um momento supercrítico, de colapso no sistema de saúde (março/2021). No entanto, o isolamento é a única forma de nos mantermos seguros e aos demais, e eu reconheço o privilégio de poder realizá-lo. A essa altura imaginava que estaríamos já vacinados, mas a vacina não chegou a tempo de salvar tantas vidas. A ciência não tem sido levada em conta na tomada de decisões pelo governo.
Quanto ao doutorado, o desafio foi intenso. Mas a tese foi escrita, está sendo encaminhada para a banca e espero ser aprovada. No próximo mês retorno às atividades na FURG, que, ao que tudo indica, ainda serão no formato remoto. Acredito que agora, meu maior desafio será aprender a conhecer os estudantes só por meio das mídias sociais e ambientes de aprendizagem, ou seja, aprender a chegar perto, estando longe. O futuro ainda está nebuloso política e socialmente, mas é urgente pensar como prover experiências que sejam de fato enriquecedoras para os estudantes em distanciamento, especialmente aqueles que estão finalizando a graduação em plena pandemia.
Meu objeto de estudo no doutorado foi uma instância representativa responsável por formular políticas públicas para arquivos no campo da cultura – o Colegiado Setorial de Arquivos do Conselho Nacional de Política Cultural, que sucumbiu junto a certo modelo de Estado. Pesquisar sobre isso me permitiu pensar que os arquivos não desempenharão seu devido papel na sociedade enquanto não houver suficientes espaços de participação social em equilíbrio com os governos. Espero que, quando tudo isso passe (pandemia, negacionismo e desinformação crônica) eu ainda esteja aqui, e que eu possa ajudar a formar pessoas que se importem com nossa democracia, e que entendam a importância dos arquivos para uma sociedade mais justa.
Confiante sobre a preservação deste meu relato para o futuro, agradeço a oportunidade de contar um pouco da minha vida nesse período tão marcante para todos. Obrigada, AARS.

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