Série AARS Depoimentos: Arquivos na pandemia – Fernanda Pedrazzi

Iniciamos na segunda semana de julho a Série AARS Depoimentos: Arquivos na pandemia. Hoje publicamos o nono depoimento.

A associada Fernanda Kieling Pedrazzi relata o impacto da pandemia da Covid-19 no seu trabalho arquivístico.

Os depoimentos são publicados às quintas-feiras no site da AARS.

Fernanda Kieling Pedrazzi
Arquivista UFSM
Santa Maria, Rio Grande do Sul
Associada n. 213 da AARS

Qual o seu local de trabalho como arquivista?
Eu sou professora do Curso de Arquivologia do Centro de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), campus sede em Santa Maria (RS). Meu local de trabalho é uma sala de professor (a 2125 B) no térreo do prédio 74A (CCSH), Cidade Universitária Prof. José Mariano da Rocha Filho. Além disso desenvolvo minhas atividades práticas na sala anexa (2125 A) onde fica o Laboratório de Paleografia Profa. Eneida Izabel Schirmer Richter (o LaPPEI).

Quais atividades desenvolvia antes da pandemia?
Antes da Pandemia, neste semestre, eu desenvolvia aulas presenciais de duas disciplinas da graduação em Arquivologia, aulas presenciais em uma disciplina do Mestrado em Patrimônio Cultural, orientação de quatro orientandos do Mestrado Profissional em Gestão de Organizações Públicas (dois de 2018 e dois de 2019), orientação de oito orientandos do Mestrado Profissional em Gestão de Organizações Públicas (quatro de 2018, dois de 2019 e dois de 2020), orientação de dois alunos de graduação em TCC, produção de textos para publicação, participação em bancas, reuniões, grupo de estudos, organização de materiais para cursos extras, etc.

A pandemia mudou a sua rotina de trabalho? Se sim, conte-nos o que mudou.
Sim, a pandemia mudou muito a minha rotina. A começar pelo local. Meu prédio está fechado então trabalho em casa. É em casa também que meus três filhos de 16, 13 e 9 anos estão tendo aulas e/ou atividades à distância. Ou seja, compartilho/divido o espaço da casa com eles desde o primeiro dia de afastamento do meu local de trabalho. Assim como as aulas, a maioria das orientações eram presenciais e apenas era feito o agendamento dos encontros usando o telefone ou a internet (e-mail, whatsapp, etc). As aulas passaram a ser ministradas com base no REDE, em Regime de Exercícios Domiciliares Especiais para atividades acadêmico-científicas, usando a ferramenta Moodle, com envio de materiais e tarefas pela internet e houve uma queda significativa na presença e participação dos alunos de graduação. Os alunos de mestrado continuaram a desenvolver as atividades e enviaram as tarefas combinadas, todos que iniciaram concluiram a disciplina. As orientações passaram a ser virtuais, algumas usando o Meet, ferramenta de reuniões, outras pelo vídeo do whatsapp e a maioria usando recados e e-mails com os textos indo e voltando anexados. Foi feita, até aqui, uma defesa de TCC pelo Meet e tem mais uma agendada para até final de agosto, uma qualificação por parecer e duas já agendadas até final de agosto, uma defesa de mestrado por parecer (e outras três já agendadas até final de agosto). Tivemos que ampliar prazos de todos e trabalhar com o possível para que todos conseguissem dar prosseguimento a suas pesquisas considerando a falta de bibliotecas e sem a possibilidade de pesquisa de campo. A internet de casa está sobrecarregada com tantas atividades que tenho que acessar (assim como meus filhos), mas este é, do ponto de vista do trabalho, o menor dos ônus que temos. Creio que a parte mais difícil de lidar é o tanto de “chamados” que recebemos para bancas, avaliações e para assistir lives. São muitas as ofertas de queridos amigos que gostaríamos de participar, mas que só temos à disposição em determinados horários (às vezes bem ruins para quem tem uma família com filhos) enquanto que estamos ainda mais atarefados dando conta das obrigações do trabalho, com burocracias reinventadas. Infelizmente o grupo de estudos foi sacrificado e temos tido contato somente por whatsapp trocando indicações de materiais como artigos, reportagens, vídeos etc. Gostaria de estar vivendo esta Pandemia fazendo o que dizem da na TV, do modo “ideal” ficando em casa e: lendo um livro, criando uma horta, meditando. Mas a cada dia que passo em casa o trabalho só faz aumentar e o que mais faço da hora que abro os olhos de manhã até aquela em que os fecho é ler materiais para trabalho, sempre em grande volume, seja dos trabalhos de orientandos ou ainda de discentes de programas que participo ou de fora para ser avaliadora, organizar materiais de modo diferente para ofertar aos alunos, estar disponível 24 horas para o trabalho. Isso tudo tem sido bem desgastante e algumas vezes até frustrante porque a cobrança interna é sempre grande.

Depois que a pandemia passar, como será a volta ao trabalho? Que rotinas pretende retomar e quais manterá?
Retomarei quase todas as rotinas de antes da Pandemia. No entanto, terei de adaptar uma nova edição da disciplina para aqueles alunos da graduação que não participaram das atividades à distância. Aqueles que já realizaram as atividades a contento não precisarão participar. Estamos no aguardo de algumas determinações da UFSM quanto ao calendário e até lá seguiremos usando o REDE e os recursos possíveis e disponíveis. Quanto ao meu envolvimento em orientações, pretendo repensar, especialmente quanto ao número de orientandos. Creio que passei do limite pois mesmo “com todo o tempo do mundo” (como alguns dizem) ainda está difícil realizar tudo o que preciso fazer. Sem dúvidas a Pandemia tem um lado positivo: repensarmos o quanto temos nos esforçado em aglutinar mais e mais trabalho em benefício dos demais e esquecendo de nós mesmos, que passamos a viver para o trabalho, o que em tempos de pressão e medo por uma doença real nos faz adoecer de outras formas. Pretendo continuar saudável nos próximos anos de trabalho e para isso preciso medir o que é passível de ser feito, melhorando o meu sentimento de prazer com o que faço.

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